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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Quanto cobrar pelo produto grátis

Uma caixa-preta.

De cor alaranjada, serve para registrar mensagens enviadas e recebidas pela torre, conversas dentro da cabine e variações de velocidade, aceleração, altitude e potência do avião.

Inventada pelo cientista australiano David Warren em 1950 e apresentada comercialmente em 1957, no início criou resistência no setor de Pilotos, Co-pilotos e Adjacências, pois lhes parecia uma máquina “dedo-duro”, um tacógrafo de rico, a vigiar os derradeiros passos do voo.


Qualquer que fosse a opinião d´antanho, não há como negar a importância da caixa-preta na cronologia da aviação.

Recentemente, atestamos a dificuldade de achá-la quando cai ao mar. É área demais para encontrar uma peça de aço e titânio de 40cm de comprimento por 13cm de altura.

Outra imensidão onde é difícil identificar as coisas importantes é a virtual.

O influente pensador de vanguarda Kevin Kelly* acredita que na atual economia, crescentemente virtual, os consumidores esperam que uma parcela considerável dos bens ofertados seja gratuita ou muito barata.

E argumenta que possivelmente os serviços se tornarão mais caros. Explica com a frase “o software é gratuito, mas o manual custa US$ 10,000”. Cercado de pirataria por todos os lados, a disposição para pagar pela garantia de bens mais robustos e por serviços adequados parece começar a passar pela cabeça do consumidor.

Um dos muitos softwares gratuitos disponíveis para baixar vídeos do Youtube, o VDownloader**, tem uma simpática, honesta e direta forma de “cobrar” pelo bem.

Seu autor, que assina como Enrique Puertas, escreveu uma frase no pé da tela principal conclamando as pessoas à contribuição. Diz o seguinte: “Você acha esse programa útil? Gostaria de contribuir e me ajudar a pagar os custos do servidor?”

Ao clicar, ele se dirige ao PayPal, o sistema de troca de dinheiro mais difundido na internet. Inteligente, rápido e que coloca à mão do usuário a decisão de auxiliar a manutenção do sistema.

Nada muito diferente da tradicional esfera do branding, em que os pontos de contato devem estar plenos de valor. Para quem compra e usa, não para a empresa. Quando os produtos se tornam commodities, a marca geralmente assume a função de diferenciar as ofertas (Tavares, 2008; Aaker, 2007; Scharf, 2007; Keller e Machado, 2006).

Tanto na predição de Kelly quanto no exemplo da VDownloader se antevê que conforme mais bens gratuitos são ofertados, mais importante é a diferença que a marca expressa.

É ela que trará confiança e conseguirá mover os consumidores a digitar o número do cartão de crédito; é ela que permitirá aos primeiros usuários, os denominados Experts (Gladwell, 2009), divulgar a novidade às suas comunidades; é a marca, enfim, que fará a empresa triunfar neste oceano de possibilidades que é a internet.

Tão difícil quanto achar a caixa-preta no mar, é ter a certeza de algo seguro e estável no mundo virtual.



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*Kevin Kelly foi editor executivo da Wired Magazine e é o "Editor-At-Large" para a mesma revista. Seus livros mais influentes são "Novas Regras para uma Nova Economia" e “Out of Control”. É um dos mais entusiastas propagadores de ideias envolvendo sociedades em rede.

** Acesse em http://www.vdownloader.es/